Loucura e Responsabilidade
Marcos
Vinícius da Cruz
Após um fatídico pronunciamento
presidencial transmitido a toda a população às 20h do dia 24/03/2020,
acompanhei com curiosidade os comentários e reações que se seguiram ao longo da
noite e dos dias seguintes – seja por parte da grande mídia, seja da parte de
indivíduos de diversos posicionamentos que manifestaram seus pensamentos e
reflexões pelas redes sociais. Um certo padrão de comportamento me chamou a
atenção: aqueles que afirmavam que o presidente é um “louco”, “esquizofrênico”,
“insano”. Gostaria de refletir um pouco sobre esses fenômenos.
Claramente, tais fenômenos fazem menção
a uma noção comum de loucura presente na sociedade e na visão de mundo dos
indivíduos. Contudo, esta é uma noção problemática. Já salientou Foucault
acerca da história que a alcunha “louco” carrega nas sociedades humanas: uma
alcunha nem sempre pessimista, mas recentemente (a partir da emancipação da
ciência moderna) carregada de segregação e sofrimento – sobretudo pelos que
recebem esta alcunha.
Quem é o louco? A partir do início da
história moderna, costumeiramente chamam de louco aquele que porta alguma
psicopatologia, contudo, percebe-se que essa denominação é uma alcunha social,
que antecede a denominação psiquiátrica, o louco é aquele que não compartilha
dos padrões sociais, aquele que não age da mesma forma que os outros, que não
responde da forma esperada, mas sobretudo, aquele que incomoda. O louco não
apenas subverte os padrões sociais e o status quo, mas os denuncia pela
sua simples presença. O louco não é apenas quem não liga para as questões de
autoridade, ele denuncia sua estrutura: para ele não existe quem manda mais,
não trata os grandes com a “honra” que esperam, não se curva perante eles, o
louco “mostra a língua” para todos igualmente. O louco não apenas rejeita a
mera cortesia, como não se sente mal ao esbravejar, gritar e usar palavras
“proibidas” em plena rua.
A partir destes e de tantos outros
exemplos possíveis, torna-se fácil compreender o porquê os loucos foram
separados da sociedade, foram condenados à morte ou confinados em manicômios,
lugares em que recebem um tratamento digno daqueles que não são considerados
“como nós”, ou seja, os não-humanos: sofrimentos intensos, “tratamentos”
brutais, medicações desmedidas, trabalhos forçados ou escravos, uma profunda
despersonalização (muitos encontrados ao longo do processo de
desinstitucionalização não tinham sequer documentos oficiais de identidade,
eram mais um número apenas...).
O que isto significa? Que quando se
chama alguém de louco, é nesta mentalidade que se incorre e, consequentemente,
se reproduz: a ideia de que o louco é um Outro, que precisa ser separado
dos Iguais porque os denuncia em sua pretensa igualdade. Não é nem de
longe o caso do presidente. E isto não é um elogio, mas revela um problema
ainda maior: quando se chama alguém de louco, é como se dissesse que não há
qualquer responsabilidade presente nesta pessoa e na sociedade na qual o
“louco” pertence. É como se dissesse: “Ele é louco, não sabe o que fala”, ou
ainda “ele ficou louco, não temos a ver com isso”.
O que se revela é uma isenção da
responsabilidade por si mesmo e da responsabilidade política que cada cidadão é
chamado a ter (inclusive em relação às pessoas que portam condições de
adoecimento mental) por sua própria condição de cidadão.
Para compreender isso é preciso
recorrer aos instrumentos oficiais de diagnóstico psicopatológico, ou seja, ao
DSM-V e ao CID-10. Neles estão dispostas as classificações das psicopatologias,
suas definições e critérios diagnósticos. Quanto à esquizofrenia, para citar
apenas um (termo frequentemente utilizado para descrever um “louco”), percebe-se
de imediato que para o seu diagnóstico é necessário a presença de alucinações
e/ou delírios e/ou discurso desorganizado, assim como “comportamento
grosseiramente desorganizado ou catatônico”, um comprometimento funcional no
trabalho, nas relações sociais, no autocuidado e tudo isso por pelo menos seis
meses. Aparentemente – ao menos – o presidente em questão não cumpre nenhum
destes critérios.
A conclusão à qual se deve chegar com
estas exposições é a necessidade de que se compreendam os atos não a partir da
ótica da segregação, do afastamento, mas da responsabilização (por si mesmo e
pela sociedade); que é necessário agir com consciência quanto às possibilidades
de escolha e manifestação da opinião (por meio das eleições, por exemplo); que
não se pode ser fatalista (“as coisas são assim mesmo, não vão mudar”), pois
estas responsabilidades todas residem nas mãos dos cidadãos durante todo o
tempo. Não se muda uma realidade negando-a, mas agindo com responsabilidade
sobre ela a fim de que se melhorem os dias.
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