O Destino da Nação em Quarentena

Matheus Aquino

Um dia desses revi o filme “O destino de uma nação”. À parte a atuação antológica de Gary Oldman, a história de Churchill chama atenção por si só. Num dos pontos altos do filme, o primeiro-ministro britânico durante a Segunda Guerra faz seu primeiro pronunciamento em cadeia nacional. Contando com a antipatia de muita gente ele faz o inimaginável: na cara dura conta uma “versão alternativa” dos fatos que vinham ocorrendo na França. Ao invés de encurralados pelo exército nazista, os franceses aparecem rumando à uma vitória histórica.

Duvido que Churchill, um dos grandes estadistas do século XX, tenha sido a inspiração de Bolsonaro para o pronunciamento nacional em 24/03, que já é histórico. Mas assim como o britânico Bolsonaro contou a sua versão da guerra -sim, estamos em guerra. As ações extraordinárias de países ao redor do globo justificam essa sensação: Alemanha, EUA, Reino Unido, entre outros, vem despejando dinheiro em suas economias desde o inicio da crise.

E a verdade é que Bolsonaro, apesar de ter atacado todo mundo, da imprensa aos governadores, quis se defender com toda a agressividade do seu discurso. Foi inconsequente, populista e demagogo.
Voltando à comparação com Churchill, o presidente brasileiro não mira em nenhum inimigo nazista. Suas aspirações são bem mais mundanas e desembarcam nas eleições de 2022. A reeleição é a grande preocupação de Bolsonaro, não o combate a um vírus, que na sua versão da história pode ser uma invenção dos chineses.

Ocorre que o presidente sabe que qualquer chance eleitoral passa por um desempenho minimamente razoável da economia. E parar tudo pelo coronavírus, bom, digamos que não é auspicioso para o PIB. Perder o protagonismo das ações para os governadores muito menos, já chega Maia, a Câmara, o STF... Não é fácil a famigerada harmonia entre os poderes.

Se pensasse na jogada seguinte do xadrez político, porém, Bolsonaro também enxergaria que o discurso de ontem aumenta uma palavra que dá calafrios aos economistas: incerteza. Afinal, isolar ou não? Mandam os governadores ou o presidente? Mais incerteza significa menos apetite dos investidores, menos investimento significa, para o Brasil, continuar com o pé no atoleiro.

A covardia de Bolsonaro, contudo, vai ainda mais longe. Bolsonaro não quis assumir o ônus de nenhuma das duras decisões que qualquer chefe de estado sério do mundo vem enfrentando: levar a frente o isolamento, com o risco de colapsar a já combalida economia brasileira, ou então assumir que teremos mais mortes, a menos que o sistema de saúde tenha leitos e respiradores suficientes.
Agora, fora escancarar, mais uma vez, a pequenez do pensamento bolsonarista nada de positivo pode ser extraído disso tudo? Acredito que sim, há discussões sérias que podem ser feitas, de preferência sem o presidente.

O ministro Mandetta deu a letra na sua aparição diária da quarta-feira, 25/03: ainda não chegamos ao pico de infecções pela COVID-19, o pior está por vir e virá nas próximas semanas. Parar tudo já é a solução? Em São Paulo me parece que sim, e o prazo inicial de 15 dias de quarentena estabelecido por Dória pode dar o fôlego necessário para o sistema de saúde do estado e, principalmente, da capital se prepararem. Mas e o resto do país?

Não pode ser tabu discutirmos o limite das políticas de isolamento. Elas trazem consequências sérias demais para serem adotadas a torto e a direito. Ou à esquerda e à direita, se preferirem. O ponto aqui é a grande dificuldade que Bolsonaro traz desde o início do seu mandato: discussões sérias precisam de evidências, argumentos, dados, não dos rompantes de lunáticos, ainda que com históricos de atleta. Discussões sérias sobre as medidas menos danosas à sociedade são necessárias, a busca pelo equilíbrio é a missão dos agentes públicos nesse momento.

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